quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Homem do Sudário: amostra internacional
           
            Domingo, 30 de setembro próximo passado, saímos de nossa casa e nos dirigimos ao Shopping Parque Maceió com o objetivo de visitar a exposição internacional “O Homem do Sudário”. Com o ingresso de 1 quilo de alimento, sendo o último dia do evento e uma amostra com um título tão convidativo saí preparado para enfrentar uma longa fila. Mas não, estava enganado, não havia uma grande fila, a fila era consideravelmente pequena. Em menos de 15 minutos já estávamos dentro da exposição.
            Minhas expectativas em torno da exposição não eram grandes, tinha grandes dúvidas quanto a leitura que os organizadores fariam do Sudário. Não sou especialista no assunto, nem tenho interesse em ser, minha praia de pesquisa é outra muito distante de um fantasmático pedaço de lençol fúnebre. Mas quero crer que tenho elementos suficientes de conhecimento no assunto para tomar minha própria posição. Não alimentava grandes ilusões de novas leituras seriam feitas, ou de novidades em descobertas. Tão pouco esperava encontrar exposto o objeto original, nem mesmo uma réplica, embora a exposição se autodeclarasse “exposição internacional”. 
            De cara meu grande medo em relação a uma leitura dirigida e mascarada do objeto exposto foi se tornando realidade. Do lado de fora da exposição, ao lado da entrada, estava sendo celebrada uma Missa, e o tema do sermão era algo do tipo “deixe que o homem do sudário toque sua vida” ou algo parecido com isso. Um grande aglomerado se exprimia para participar da inusitada missa num dia de domingo à tarde em um shopping, contrastando com o ínfimo gatos pintados na fila para conhecer a exposição.
            Mas mesmo assim, ainda não queria crer que a exposição tomasse o rumo, que parecia tomar do lado de fora. É lógico que mesmo antes de sair de casa não esperava grandes coisas ou isenção de fé dos organizadores. Grande ilusão!
            Do lado de dentro da exposição, a primeira seção exposta era uma leitura de fé do sudário, ditando o tom de leitura da exposição. A mesma leitura de sempre, maçante, buscando comprovar que o lençol fúnebre em questão envolveu o corpo moribundo de Jesus. Logo, de quebra, o lençol é uma prova da existência de Jesus e de todo o flagelo sofrido por ele.
            A segunda seção, mudou um pouco o tom, mostrando a cientificidade que gira em torno do sudário. Uma ciência que se contradiz em muitos pontos em torno da antiguidade do lençol e dos elementos que comprovam que o lençol envolveu em algum momento um cadáver humano bastante castigado. Mas a cientificidade parou por aí, de volta a leitura tendenciosa, a exposição força a barra mais uma vez tentando usar as descobertas cientificas para comprovarem seu ponto de vista, sua fé.
            As duas primeiras seções não foram nem aquém e nem além do esperado por mim. Nem decepção, nem encanto, apenas uma fria indiferença.  Não acrescentaram nada de novo, só as mesma e velhas descobertas cientificas em torno do objeto e as mesmas leituras tendenciosas de sempre, tentando adequar o objeto a sua leitura e não ao contrário.
            A terceira e última seção foi mais promissora, com as réplicas de alguns objetos que serviam como suplícios a condenados de rebelião pelos senhores romanos. Essa seção com toda certeza foi de longe a mais interessante e menos tendenciosa.
            O final foi mais tendencioso impossível, em tamanho real da imagem ‘impressa’ no lençol fúnebre, estava exposto o que seria o “Homem do Sudário”. Se o Sudário não deixou claro, o ‘manequim’ exposto mostra bem isso: o “Homem do Sudário” realmente é Cristo. Seu rosto prova isto, é a imagem perfeita que o Ocidente Cristão tem de Cristo, com todos os traços, cabelos, expressão. Jesus realmente existiu, sofreu o flagelo romano da cruz e o Sudário é a grande prova disto.
            Terminamos a visita, de pouco menos de 30 minutos, afinal não tinha tanta coisa assim para apreciar, e nenhuma grande novidade a acrescentar. Tecnicamente falando é uma exposição fraca, em grande parte do percurso contentou-se em expor imagens impressas, não trouxe nenhuma leitura nova, mostrou-se tendenciosa do início ao fim, dando uma leitura pronta do objeto exposto. Seus visitantes pouco tiveram de refletir sobre o assunto, apenas tiveram de digerir a leitura nada reflexiva feita pelos expositores.
            Minha leitura do Sudário não foi modificada, nem ao menos foi acrescentada de algo novo. Continuo acreditando que o Sudário sim envolveu algum corpo em algum momento e sua antiguidade é duvidosa, mas dizer que ele comprova que Jesus foi envolto nele, ou que prova a sua existência é forçar por demais a barra. Se o lençol fúnebre remete a antiguidade romana, por que ele tinha que ter envolvido exatamente Jesus e não um outro corpo de condenado rebelde qualquer? Inúmeros foram os rebeldes crucificados pelos romanos, e o lençol fúnebre tem que pertencer exatamente a Jesus?

           

                 

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