Entre aspas, farpas e afagos (por vezes pontapés e paixão) a busca de uma leitura humana no tempo e no espaço.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
"A generificação das roupas e das atitudes para com elas tem sido, ela mesma, materialmente inscrita através de relações sociais: fora do mercado capitalista, onde o tecedor masculino e o alfaiate masculino tornaram-se, crescentemente, a norma, eram as mu-lheres que eram tanto material quanto ideologicamente, associadas com a confecção, o conserto e a limpeza das roupas. E difícil recapturar plenamente a densi-dade e a complexa transformação dessa relação entre as mulheres das diferentes classes e a roupa". STALLYBRASS, Peter. O caçado de Marx: roupas, memória, dor. Trad.: Tomaz Tadeu, 3ed. BH: Autêntica, p. 23.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
O
Homem do Sudário: amostra internacional
Domingo, 30 de setembro próximo
passado, saímos de nossa casa e nos dirigimos ao Shopping Parque Maceió com o
objetivo de visitar a exposição internacional “O Homem do Sudário”. Com o
ingresso de 1 quilo de alimento, sendo o último dia do evento e uma amostra com
um título tão convidativo saí preparado para enfrentar uma longa fila. Mas não,
estava enganado, não havia uma grande fila, a fila era consideravelmente
pequena. Em menos de 15 minutos já estávamos dentro da exposição.
Minhas expectativas em torno da
exposição não eram grandes, tinha grandes dúvidas quanto a leitura que os
organizadores fariam do Sudário. Não sou especialista no assunto, nem tenho
interesse em ser, minha praia de pesquisa é outra muito distante de um
fantasmático pedaço de lençol fúnebre. Mas quero crer que tenho elementos
suficientes de conhecimento no assunto para tomar minha própria posição. Não alimentava
grandes ilusões de novas leituras seriam feitas, ou de novidades em descobertas.
Tão pouco esperava encontrar exposto o objeto original, nem mesmo uma réplica,
embora a exposição se autodeclarasse “exposição internacional”.
De cara meu grande medo em relação a
uma leitura dirigida e mascarada do objeto exposto foi se tornando realidade.
Do lado de fora da exposição, ao lado da entrada, estava sendo celebrada uma
Missa, e o tema do sermão era algo do tipo “deixe que o homem do sudário toque
sua vida” ou algo parecido com isso. Um grande aglomerado se exprimia para
participar da inusitada missa num dia de domingo à tarde em um shopping,
contrastando com o ínfimo gatos pintados na fila para conhecer a exposição.
Mas mesmo assim, ainda não queria
crer que a exposição tomasse o rumo, que parecia tomar do lado de fora. É
lógico que mesmo antes de sair de casa não esperava grandes coisas ou isenção
de fé dos organizadores. Grande ilusão!
Do lado de dentro da exposição, a
primeira seção exposta era uma leitura de fé do sudário, ditando o tom de
leitura da exposição. A mesma leitura de sempre, maçante, buscando comprovar
que o lençol fúnebre em questão envolveu o corpo moribundo de Jesus. Logo, de
quebra, o lençol é uma prova da existência de Jesus e de todo o flagelo sofrido
por ele.
A segunda seção, mudou um pouco o
tom, mostrando a cientificidade que gira em torno do sudário. Uma ciência que se
contradiz em muitos pontos em torno da antiguidade do lençol e dos elementos
que comprovam que o lençol envolveu em algum momento um cadáver humano bastante
castigado. Mas a cientificidade parou por aí, de volta a leitura tendenciosa, a
exposição força a barra mais uma vez tentando usar as descobertas cientificas
para comprovarem seu ponto de vista, sua fé.
As duas primeiras seções não foram
nem aquém e nem além do esperado por mim. Nem decepção, nem encanto, apenas uma
fria indiferença. Não acrescentaram nada
de novo, só as mesma e velhas descobertas cientificas em torno do objeto e as
mesmas leituras tendenciosas de sempre, tentando adequar o objeto a sua leitura
e não ao contrário.
A terceira e última seção foi mais
promissora, com as réplicas de alguns objetos que serviam como suplícios a
condenados de rebelião pelos senhores romanos. Essa seção com toda certeza foi
de longe a mais interessante e menos tendenciosa.
O final foi mais tendencioso
impossível, em tamanho real da imagem ‘impressa’ no lençol fúnebre, estava
exposto o que seria o “Homem do Sudário”. Se o Sudário não deixou claro, o
‘manequim’ exposto mostra bem isso: o “Homem do Sudário” realmente é Cristo.
Seu rosto prova isto, é a imagem perfeita que o Ocidente Cristão tem de Cristo,
com todos os traços, cabelos, expressão. Jesus realmente existiu, sofreu o
flagelo romano da cruz e o Sudário é a grande prova disto.
Terminamos a visita, de pouco menos
de 30 minutos, afinal não tinha tanta coisa assim para apreciar, e nenhuma
grande novidade a acrescentar. Tecnicamente falando é uma exposição fraca, em
grande parte do percurso contentou-se em expor imagens impressas, não trouxe
nenhuma leitura nova, mostrou-se tendenciosa do início ao fim, dando uma
leitura pronta do objeto exposto. Seus visitantes pouco tiveram de refletir
sobre o assunto, apenas tiveram de digerir a leitura nada reflexiva feita pelos
expositores.
Minha leitura do Sudário não foi
modificada, nem ao menos foi acrescentada de algo novo. Continuo acreditando
que o Sudário sim envolveu algum corpo em algum momento e sua antiguidade é
duvidosa, mas dizer que ele comprova que Jesus foi envolto nele, ou que prova a
sua existência é forçar por demais a barra. Se o lençol fúnebre remete a
antiguidade romana, por que ele tinha que ter envolvido exatamente Jesus e não
um outro corpo de condenado rebelde qualquer? Inúmeros foram os rebeldes
crucificados pelos romanos, e o lençol fúnebre tem que pertencer exatamente a Jesus?
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