Le Point (François Giron): Esta cidade nova modelou uma nova sociedade ? De que modo ?
Jacques Le Goff: Deste ponto de vista, a cidade desempenhou dois papéis muito importantes. Em primeiro lugar, engendrou o surgimento de uma nova categoria social – a burguesia –, beneficiária das franquias e liberdades urbanas. O que é importante ressaltar aqui – mesmo que exista, de fato, uma hierarquia no seio dessa nova classe – é que, pelo menos teoricamente, os burgueses constituem uma sociedade igualitária. Com relação a este tema, é necessário modificar um pouco a imagem que geralmente se tem da sociedade feudal, a de uma sociedade hierarquizada compreendendo duas categorias de pessoas: os nobres e os não-nobres, isto é, os plebeus. Pois, na primeira categoria, havia muito mais igualdade do que se propala. No interior dessa nobreza – a classe dominante –, o mais importante a ressaltar é que senhores e vassalos estavam, de algum modo, em pé de igualdade, posto que, um senhor ainda que possuindo vassalos, podia ele próprio ser vassalo de outro senhor. O ato que permite a homens adultos ingressarem na camada superior do feudalismo – a homenagem [l'hommage](1) – é uma combinação de desigualdade e igualdade. O vassalo, em primeiro lugar, coloca as mãos entre as do seu senhor, gesto que simboliza seu juramento de obediência e demarca a superioridade deste último. Mas, logo em seguida, há o beijo, prova de igualdade entre ambos. Nas cidades, a exemplo desse modelo igualitário dos nobres, surge um modelo igualitário urbano e burguês. Isto instaura, em toda a sociedade, um sistema que assumirá diversas formas, mas que não vai mais parar de crescer na França, até a Revolução. Conseqüentemente, podemos afirmar que as cidades foram o berço da Democracia. Este é um ponto essencial. Mas existe ainda um segundo aspecto: foi nas cidades que se desenvolveu uma instituição fundamental, muito diferente, ela também, da que existia na Antiguidade: a escola. O Cristianismo havia criado escolas em seus centros de poder na alta Idade Média, os mosteiros e as dioceses –
escolas monásticas e escolas episcopais. Mas, o que aparece no século XII são as escolas urbanas, que chamaríamos hoje de escolas primárias e secundárias. Costumamos nos esquecer delas, mas tiveram um papel capital. Há estudos que demonstram, por exemplo, como se desenvolveu no século XII, em Reims, uma importante escolarização das crianças, inclusive das menina
Entrevista com Jacques Le Goff, historiador francês especializado em Idade Média. Realizada por François Giron e publicada originalmente na revista Le Point, nº duplo 1684/1685, de 23 a 30 de dezembro de 2004. Tradução: Leticia Ligneul Cotrim Revisão técnica: Mauro Almada Jacques Le Goff, professor universitário e medievalista é considerado, merecidamente, um dos mais importantes historiadores da atualidade. Munido de sua paixão pela Idade Média, ele lança aqui um novo olhar, indagador e profundamente humano, sobre o período
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